MENSAGEM de Fernando Pessoa; Terceira Parte- O ENCOBERTO
Terceiro- OS TEMPOS
Quinto- NEVOEIRO
..Ouça aqui o poema (para estudantes de português) Óleo de Carlos Alberto Santos
NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor bao da terra
que Portugal a entristecer
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que mal nem o que bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo incerto e derradeiro.
Tudo disperso, nada inteiro.
Portugal, hoje s nevoeiro...

 

a Hora!

Comentários:

Neste poema, o último de Mensagem, Fernando Pessoa transmite uma imagem desencantada da realidade do Portugal dos seus dias... mas para concluir que essa situação é, afinal, o nevoeiro de que falam as profecias e que marcará o regresso de D.Sebastião. A conclusão de que o nevoeiro que se esperava não é, afinal, literal (físico) mas antes simbólico (social e político) permite-lhe acabar o Poema com uma "volta" final ao gritar: "É a Hora!".

"fogo-fátuo"- chama azulada, em geral breve, resultante da combustão espontânea de uma mistura de metano e ar em determinadas proporções. O metano (gás dos pântanos) é produzido naturalmente pela decomposição da matéria orgânica, vegetal ou animal. A combustão produz calor, mas como é muito breve a chama pode parecer fria.

.Ouça aqui o poema (para estudantes de português) .
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Lisboa, Portugal. Dez 20, 2003; revisto Mar 03, 2004
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João Manuel Mimoso
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NOTA: Para uma discussão muito breve do simbolismo deste poema inserido no conjunto d'Os Tempos ver a minha introdução a "O Encoberto".

English version

An introduction to the poem: According to an old prophecy, king Sebastian did not die in Morocco and he will one day return to his homeland, arriving in a misty morning. Mist is thus intertwined with the myth of the return of the Desejado (he who is yearned for), be he king Sebastian or someone else. In this final poem of Mensagem, Fernando Pessoa introduces a final turn that allows for a masterful close to the whole Poem: he describes the rather hapless and forsaken situation of his country at the time of his writing and ends by stating that such situation is, symbolically speaking, mist. And so he cries out that the time is thus come: "It is the hour!" meaning that a time such as his is indeed the right moment for the prophecy to be fulfilled!

Mist

Neither king nor law, neither peace nor war,
Define with outline and substance
This dull brilliance of the land
That is Portugal sinking in sadness -
Brightness without light or heat,
Like that which the will-o-the-wisp confines.

 

Nobody knows what one wants.
Nobody is aware of ones own soul,
Nor of what is evil, nor of what is pure.
(What distant anxiety weeps nearby?)
All is uncertain and ultimate.
All is fragmented, nothing is whole.
Oh Portugal, today you are mist...

Tis the hour!